Domingo, 21 de Setembro de 2008

"Memórias de Vilar Formoso" - Dr. Adriano Vasco Rodrigues (PA 160)

 

Como já referi, guardo recordações que minha Mãe me transmitiu falando-me da sua infância e adolescência em Vilar Formoso. Meus Avós maternos, os Fonsecas, residiam na Estação, onde tinham uma casa de comércio. Ali não havia escola primária e as crianças tinham de se deslocar ao Povo, então separado por uns 2 km de estrada sem casas a ladeá-la. O crescimento urbano, principalmente a partir da década de 1960, uniu os dois pólos e tornou Vilar Formoso a vila que hoje é, com características singulares e um certo toque citadino.

A primeira Escola a ser construída na Estação, na década de 1930, ficou a dever-se a meu tio-avô, o Comendador Albino Monteiro, que passou a maior parte da sua vida no Brasil. O núcleo da Estação de Fuentes de Oñoro tinha já Escola desde 1890…

Das recordações de minha Mãe do tempo de aluna da Escola do Povo, dois episódios muito a impressionaram. Corria o mês de Maio ou Junho, por volta de 1900, com dias quentes e luminosos. Num deles, estavam na aula, quando escureceu de repente, anunciando que a noite ia cair. As aves entravam como loucas pelas janelas da Escola e as crianças gritavam assustadas. De repente ficou noite escura, muito escura, com estrelas no céu. Depois, pouco a pouco, voltou a clarear.

O Mestre-escola, (a designação de professor primário apareceu só com a Primeira República), explicou que se tratava de um eclipse. A experiência vivida pelos alunos foi um grande susto.

Outro episódio que muito a impressionou ocorreu numa noite de estio, também na sua infância. Estavam a cear quando ouviram gritos dizendo que caíra uma estrela. Um meteorito atravessara bastante baixo o céu e tombara para os lados da Cidade de Rodrigo. Como as pessoas se dirigiam para um dos pontos mais altos da povoação, seguiu-as com os pais. Ao longe via-se um clarão intenso. Uns diziam que era a estrela caída; outros que era o incêndio que provocara.

Os vizinhos de Fuentes confirmaram, no dia seguinte, a queda do meteorito. Até hoje não encontrei referências a este queda. Fica aqui o apontamento.

As histórias mais animadas que minha Mãe contava eram as dos ursos gaiteiros, que, de tempos a tempos, depois de deambularem por Espanha entravam em Portugal. Vinham da Hungria. Dançavam ao som do pandeiro, pressionados pelos freios com que os domadores os seguravam e não pelo gosto de dançar. Miúdos e adultos faziam círculo para os ver. Por vezes, os ursos abraçavam um dos assistentes, obrigando o domador a intervir e pondo os outros a rir.

Minha Mãe quando jovem estudante da Escola Normal da Guarda e mesmo depois de formada, assistia nas férias ás festas arraianas, acompanhada pelas primas e amigas de Vilar Formoso, onde havia grande solidariedade entre a gente moça. As festas de maior vulto eram a da Santa Eufêmia na Freineda, com um famoso arraial e música e a da Senhora da Assunção em Fuentes de Oñoro, a que nunca faltava a tourada e o baile. Recordava também o manúbio de Fuentes, um órgão gigante, cujo mecanismo era rodado à mão (manúbio), soltando música para bailar. O ritmo dependia do impulso de quem rodava a manivela.

Das recordações tristes, avultava a da pneumónica, que quase a levou mas não poupou a minha Avó.

Para evitar a entrada em Portugal de portadores de doenças contagiosas havia o Lazareto, um posto de controlo sanitário, perto da fronteira, onde os suspeitos ficavam de quarentena. Em Fuentes também havia, localizado nos Pinos. O senhor José Fernandes numa das suas interessantes cartas descreve-o:

A estrutura do Lazareto era muito complexa. Tinha laboratórios de análises, lavandaria, um poço coberto para abastecimento de água, as enfermarias do isolamento dessiminadas no meio do arvoredo. Restam dessas construções o edifício da Junta de Freguesia, já completamente remodelado e o quartel da G.N.R., o Cristo ou Santo Cristo.

O Cristo, a que já me referi noutro artigo, era uma antiga capela que servia de cadeia. O senhor José Fernandes esclarece que um preso com habilidade dedicou-se a desenhar o Cristo na cruz numa posição pouco vulgar. Em vez da vertical colocou o desenho numa posição oblíqua de modo a ter a maior área possível da parede rectangular quando se entrava, o desenho partia do ângulo superior esquerdo e acabava no ângulo inferior direito. Era feito a carvão e tinha qualidade. O Lazareto era cercado por um muro de pelo menos 2 metros de altura. As árvores eram principalmente ailantos, amoreiras, uma cerejeira e um abrunheiro. O ailanto é uma árvore trazida da China pelos portugueses a qual, significa lá “árvore do Céu”.

Uma vez mais agradeço ao senhor José Fernandes as suas preciosas informações.

 

Dr. Adriano Vasco Rodrigues

publicado por Praça Alta às 16:54
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1 comentário:
De Maria Cecilia de São Thiago a 27 de Janeiro de 2019 às 05:49
Pesquisando na internet sobre Vilar Formoso, cidade do meu bisavô, Comendador Albino Monteiro, cheguei a este post onde Dr. Adriano Vasco Rodrigues se refere a ele como seu tio- avô.



Sou brasileira, estive em Vilar Formoso em 1986 quando visitei a escola com seu nome, e pude constatar emocionada, os belos retratos de meu Bisavô Albino, e Bisavó Leonie Lacombe Monteiro, pendurados na parede.


Peço encarecidamente que me coloquem em contato com Dr. Adriano. Não é todo dia que se descobre parentes em Portugal, que não se conhecia.



Agradeço imensamente desde já,
M. Cecilia de São Thiago
saothiago@me.com


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